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Equilíbrio emocional em entrevistas: sua competência precisa conseguir aparecer

Foto do escritor: Val Ritis
Val Ritis
19 de ago.
5 min de leitura

Entenda como o estado emocional pode afetar sua comunicação em entrevistas e aprenda a se preparar para demonstrar suas competências com mais clareza, presença e segurança.


Recentemente tive uma conversa com uma amiga que me fez refletir sobre algo que muitas pessoas ainda subestimam nos processos seletivos: não basta ter competência. É preciso estar em condições emocionais de permitir que essa competência apareça.


Ela me contou que havia acabado de ser aprovada em um processo seletivo. Foi muito bem nas entrevistas, recebeu a proposta, mas decidiu não aceitar porque o salário oferecido era inferior ao que já recebe.

Então ela comparou essa experiência com outra que vivenciou há apenas três meses, quando na ocasião, ela não passou.

As competências profissionais que ela apresentou em ambos processos foram as mesmas. A experiência também.


O que havia mudado, então? O seu estado emocional.

Três meses antes, ela estava vivendo um burnout. Agora, sentia-se bem, mais centrada e emocionalmente disponível.


Essa diferença não é pequena. E pode mudar completamente a forma como uma pessoa se apresenta em uma entrevista e também a percepção do recrutador.


A entrevista não avalia apenas o que você sabe


Em um processo seletivo, ninguém tem acesso direto a tudo o que você já construiu profissionalmente. A pessoa que entrevista conhece apenas aquilo que você consegue tornar visível durante uma conversa relativamente curta.

Sua experiência precisa aparecer na maneira como você organiza uma resposta, explica uma decisão, conta uma história, sustenta uma pausa, reage a uma pergunta inesperada e estabelece conexão.

Por isso, duas pessoas com competências semelhantes podem causar impressões muito diferentes. E a mesma pessoa pode apresentar desempenhos muito distintos em momentos diferentes da vida.


Quando estamos emocionalmente sobrecarregados, podemos:

  • ter dificuldade para organizar o pensamento;

  • responder de forma excessivamente longa ou vaga;

  • esquecer exemplos importantes;

  • falar rápido demais ou com pouca energia;

  • perder presença e contato com quem entrevista;

  • interpretar perguntas neutras como ameaçadoras;

  • demonstrar insegurança mesmo conhecendo profundamente o assunto.


Quem conduz a entrevista talvez não saiba que existe um burnout, ansiedade ou exaustão por trás daquela comunicação. Portanto, é mais preciso dizer que essa pessoa não necessariamente “perceberá que há algo errado”. O que pode acontecer é interpretar os sinais observáveis como falta de preparo, clareza, confiança, capacidade de síntese ou aderência à função.

Essa interpretação pode ser incompleta e até injusta, mas ainda assim influenciar a decisão.


Burnout não apaga sua competência, mas pode dificultar o acesso a ela


A Organização Mundial da Saúde define burnout como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Entre suas dimensões estão exaustão, distanciamento mental do trabalho e redução da eficácia profissional percebida.

Isso ajuda a compreender o que aconteceu com a minha amiga. Ela não se tornou competente em três meses. A competência já estava lá. Mas, na segunda entrevista, ela estava em melhores condições para acessá-la, organizá-la e comunicá-la.


Pesquisas sobre ansiedade em entrevistas também indicam uma relação negativa entre ansiedade e desempenho. Isso não significa que qualquer nervosismo levará à reprovação. Sentir alguma tensão diante de uma avaliação importante é humano. O problema surge quando a ativação emocional ocupa tanto espaço que reduz a capacidade de escuta, raciocínio, conexão e expressão.


Existe aqui uma distinção importante: equilíbrio emocional não significa não sentir ansiedade. Significa conseguir perceber o que está acontecendo internamente e recuperar regulação suficiente para continuar presente.


Preparar respostas é importante. Preparar o seu estado também.


Muitas pessoas se preparam para entrevistas revisando o currículo, pesquisando a empresa e ensaiando respostas. Tudo isso é necessário. Mas a preparação fica incompleta quando não inclui o estado emocional com que a pessoa chegará à conversa.


Antes da entrevista, vale observar:

  • Como está meu nível de energia?

  • Estou conseguindo dormir e pensar com clareza?

  • Qual pergunta ou situação está ativando mais medo em mim?

  • Estou tentando provar desesperadamente o meu valor ou consigo conversar sobre ele?

  • Meu corpo está em estado de alerta muito alto?

  • Preciso apenas de uma prática breve de regulação ou estou vivendo uma condição que exige apoio mais profundo?


Essas perguntas evitam uma armadilha comum: acreditar que basta memorizar respostas perfeitas.

Uma resposta pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, soar desconectada, defensiva ou ensaiada demais.


Uma prática breve antes da entrevista


Se você estiver sentindo uma ansiedade administrável, experimente esta preparação:

  1. Reserve alguns minutos sem revisar conteúdo. Interrompa a tentativa de colocar mais informações na cabeça imediatamente antes da conversa.

  2. Alongue a expiração. Inspire de maneira confortável e solte o ar um pouco mais lentamente. Não force nem prenda a respiração se isso causar desconforto.

  3. Sinta o apoio do corpo. Perceba os pés no chão, as costas na cadeira e os pontos de contato com o ambiente.

  4. Escolha três mensagens essenciais. O que você quer que a pessoa compreenda sobre seu valor ao final da entrevista?

  5. Recupere evidências reais. Lembre-se de duas ou três situações em que você resolveu problemas, tomou decisões ou gerou resultados.

  6. Troque a lógica da prova pela lógica da conversa. Você não está ali apenas para ser aprovado. Também está avaliando se aquela oportunidade é coerente com o que busca.


Esse último ponto muda a relação de poder. Foi exatamente o que a experiência da minha amiga mostrou: passar em um processo não significa que você precise aceitar a proposta. Uma entrevista é um encontro de avaliação mútua.


O que a respiração não resolve


É importante não romantizar a autorregulação. Uma técnica de respiração pode ajudar a reduzir a ativação naquele momento, mas não trata burnout nem corrige um ambiente de trabalho adoecedor.

Se existe exaustão persistente, sofrimento intenso ou prejuízo no funcionamento diário, a prioridade talvez não seja aprender a performar melhor apesar disso. Pode ser necessário buscar apoio qualificado, recuperar-se e avaliar as condições que produziram aquele estado.


O objetivo não deve ser ensinar alguém a esconder o sofrimento com uma comunicação mais convincente. Deve ser ajudar a pessoa a recuperar recursos internos para fazer escolhas mais conscientes e apresentar seu valor sem se abandonar no processo.


O posicionamento profissional começa antes das palavras


Em uma entrevista, você comunica mais do que um conjunto de habilidades. Comunica como compreende sua trajetória, como se relaciona com o próprio valor e como responde à pressão.

É por isso que, nos meus processos de mentoria, não trabalho apenas currículo, LinkedIn e respostas para entrevistas. Também utilizo a metodologia que criei para identificar padrões emocionais que podem afetar a performance na hora de se posicionar, mesmo quando a pessoa tem as competências necessárias.


Às vezes, o obstáculo não é falta de experiência. É uma parte interna que teme ser julgada, sente que precisa provar demais, minimiza conquistas ou perde acesso à própria voz diante de uma figura de autoridade.

Quando esses padrões são reconhecidos, a preparação deixa de ser apenas técnica. Ela passa a integrar conteúdo, comunicação e presença.


Sua competência não desaparece quando você está emocionalmente fragilizado. Mas ela pode ficar mais difícil de acessar e transmitir.


E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes antes de uma entrevista:

Além de saber o que quero dizer, em que estado eu preciso estar para conseguir demonstrar quem sou e o valor que posso entregar?


Quer trabalhar essa resposta na prática?


Se você reconhece o seu valor, mas sente que nem sempre consegue expressá-lo com clareza, segurança e presença, conheça a minha Mentoria de Posicionamento Profissional. Nela, trabalhamos a forma como você comunica o que sabe e o valor que entrega, além dos padrões emocionais que podem estar interferindo em suas decisões e na maneira como ocupa o seu espaço.


Referências:

 
 
 

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